Se eu tivesse o hábito de ler as mensagens que me chegam na caixa de e-mail do Orkut, certamente já teria feito este post há algum tempo atrás. Hoje, por acaso, percebi que a bendita caixa estava absurdamente cheia e resolvi acessá-la para fazer a limpeza, quando vi que havia uma mensagem do meu querido Sérgio Viula convidando-me para ler uma entrevista que ele concedeu ao site da revista A Capa há 2 meses atrás. Apesar do atraso considerável, não pensei duas vezes antes de abrí-la. Qualquer entrevista concedida pelo Sérgio é garantia de polêmica e, acima de tudo, de grande aprendizado. Parei o que estava fazendo e corri para ler. Para minha surpresa me deparei com uma entrevista elaborada pelo Márcio Retamero, que é pastor de uma igreja protestante inclusiva e gay assumido. Ou seja, uma insólita entrevista entre um crente e um ateu, um pastor e um ex-pastor, ambos gays (!).
Viula, para quem ainda não sabe, é o ex-pastor que há alguns anos atrás deu uma entrevista bafônica para a Revista Época contando todos os podres do grupo evangélico MOSES que dizia curar homossexuais. Depois disso, Viula se desligou da igreja e se tornou ateu. Esta entrevista, inclusive, também está aqui no meu blog, caso queiram conferir.
Como o assunto homossexualidade X religião é sempre pertinente, e eu recebo muitos e-mails de leitores gays relacionados ao tema, resolvi transpor para cá alguns trechos interessantes da entrevista mais recente na qual, além de religião, Viula também fala da saída do armário e de política. Vale a pena conferir:
A Capa – Você foi um dos fundadores do MOSES [Movimento pela Sexualidade Sadia] que prega a conversão de homossexuais em heterossexuais. Como foi o processo até você entender que essa conversão é uma falácia?
Sérgio – Diversas coisas aconteceram para que eu pudesse despertar do sono dogmático em que me encontrava. Primeiro, fui percebendo eu mesmo – a despeito de toda fé e dedicação – não experimentara nenhuma mudança real. Depois, passei a prestar atenção à vida das inúmeras pessoas que nos procuravam e passavam pelos aconselhamentos, retiros, orações etc. Nenhuma delas havia mudado de fato. Só sabiam sofrer com a tensão entre o que diziam os fundamentalistas cristãos e o que desejavam de coração. Várias pessoas se envolveram com pessoas que estavam no MOSES. Várias vezes presenciei confrontações entre a liderança do MOSES e gente que havia transado com amigos conhecidos no ministério. Além daqueles que transavam fora e traziam suas histórias aos prantos para as sessões de aconselhamento.
A Capa – Sair do armário é um duro processo! O título do seu blog é “Fora do Armário” diz muito sobre a sua atual condição existencial. Como foi esse processo de sair do armário para você e para a sua família?
Sérgio - Foi duro. Fui perseguido por meus pais e irmãs, minha ex-mulher, incompreendido por “amigos” etc. Meus filhos foram surpreendentemente maduros, apesar de tão novos. Nunca deixaram de me amar e querer estar comigo. Deixei minha casa e tudo o que havia dentro dela nas mãos da minha ex-mulher por causa dos meus filhos. Comecei do tudo do zero de novo. Arrumei novo emprego, porque a escola na qual lecionava estava nas mãos de gente da igreja batista, e a convivência ficou insustentável. Nunca me arrependi de ter saído do armário. Fui em frente. Batalhei. E por isso progredi para um emprego melhor, consegui minha casa própria, conheci Emanuel (com quem estou casado hoje), passei a morar perto dos meus filhos (que estão com minha mãe atualmente), meus pais passaram a aceitar a realidade e se dão bem comigo e com Emanuel atualmente. Estou colhendo a tranquilidade que plantei no meio da maior tempestade que enfrentei na vida. Valeu a pena!
A Capa- Pesando tudo isso, apesar das lutas internas e externas, valeu a pena? O que você diria para alguém que deseja muito sair do armário, mas ainda não encontrou forças para isso?
Sérgio - Sair do armário vale a pena! É muito melhor viver 100% na autenticidade com relação à sua homoafetividade do que “de dia ser Maria e de noite ser João”, como cantava o Chacrinha. A pessoa nem é realmente heterossexual e nem vive plenamente sua homossexualidade. Quando a gente é resolvido e assumido, a chantagem, a ameaça, as acusações indiretas e coisas semelhantes perdem totalmente o efeito. Você assume o controle de sua própria vida e desejo. Se tiver que mudar tudo para viver plenamente, mude! Eu mudei de emprego, de endereço, de amigos, mas ganhei qualidade de vida, tranquilidade e as condições necessárias para me realizar plenamente.
A Capa – O ateísmo que hoje você professa é fruto de um processo de entendimento acerca da religião, sua natureza e papel social ou reação emocional, portanto, reativa, a tudo o que você viveu na igreja evangélica? Como você de cristão passou a ateu?
Sérgio - Tudo isso junto. Compreendi que – essencialmente falando – o cristianismo não está em posição melhor do que qualquer outra religião atual ou antiga. A religião egípcia, grega, cananita pode ser encarada até como superior em alguns aspectos. Qual é o fundamento seguro, ou seja, evidente e infalível que me garante que Deus existe, ou que a Bíblia é uma revelação divina, ou que o céu existe, ou que o inferno seja real? Como saber seguramente que Jesus e não Maomé ou Buda é o caminho, a verdade e a vida? Quem me garante que Jesus – se existiu de fato – não foi meramente um judeu, inconformado e ressentido com os dominadores da época, que acabou sendo mitificado por seus seguidores como ainda hoje acontece com aqueles que inspiram os desesperados. O próprio Inri Cristo que vive no sul do Brasil e alega ser a reencarnação de Cristo tem seus seguidores. Pode parecer uma comparação ridícula, mas só soa ridícula, porque a carga emocional que cerca a figura de Jesus hoje é muito forte. Imagine como seria visto o Inri Cristo daqui a algumas décadas ou séculos se pudesse contar com todos as forças políticas, sociais e econômicas que levaram Jesus a se tornar o messias de milhões pessoas do lado de cá do mundo. Haveria quem acendesse fogueiras em nome dele!
Emocionalmente falando, entender que não preciso dar contas a deus nenhum me liberou para ser eu mesmo e fazer de mim o melhor que eu possa. Se por um lado eu não tenho um fustigador celestial, por outro não tenho um onipotente provedor. Isso me libera para ser e fazer muito mais da vida! Deus não existe para cobrar, mas também não existe para dar nada. Não existe medo e nem esperança inútil. Restam a determinação em fazer da vida uma obra de arte e a ação prática na realização desta empreitada
A Capa – Religião e política tem andado de mãos dadas no nosso país. O Brasil assinou um acordo bilateral com o Vaticano nos últimos meses e só cresce o número de políticos evangélicos. Nossos espaços públicos são cheios de imagens e ícones do cristianismo. O Estado Laico ainda é um sonho?
Sérgio - O Brasil é uma piada em diversos sentidos. Somos constitucionalmente laicos, mas na prática o sacerdócio dá muito palpite na vida pública. Qualquer pessoa pode professar a religião que quiser. Ateus também deveriam ser mais claros em relação ao seu ateísmo. Existe um armário para os ateus também. Ateus precisam assumir tranquilamente suas ideias. Isso faz diferença. Agora ninguém pode usar cargo político para favorecer grupos religiosos ou agremiações de qualquer espécie. Foi isso o que Édino Fonseca tentou fazer em 2004 e a Revista Época denunciou através da minha entrevista. Isso tem que acabar. Isso também é uma forma de corrupção. O Estado Secular de Direito é melhor, porque garante mais direitos para todos, inclusive para os religiosos. O dia em que uma religião tomar o poder, todas as outras estão perdidas. Vejam os exemplos históricos da Europa, do Oriente Médio e do Sul da Ásia.
A Capa – As eleições estão chegando e, pelo atual desenho eleitoral, teremos duas mulheres que, embora façam parte da esquerda, são evangélicas e concorrerão para importantes cargos no Executivo. Falo da senadora Marina Silva e da atual vereadora Heloísa Helena. Você votaria em evangélicos ainda que de esquerda?
Sérgio- Dificilmente. A maioria dos crentes faria qualquer coisa para preservar aquilo em que creem. Isso é perigoso. Por outro lado, o fato de alguém ser ateu não garante que será bom governante. É preciso ver as propostas e o passado político de cada candidato(a). O próprio Barack Obama que tantas expectativas alimentou vem sendo alvo da crítica do movimento homossexual americano por não estar realmente fazendo avançar a luta pela conquista de direitos civis em território americano. É muito difícil acreditar nos políticos. Os homossexuais já foram massa de manobra nas mãos dessa gente por tantas vezes que já não dá para apostar em nenhum deles.
Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.
E para quem quiser conhecer o blog Fora do Armário do Sérgio Viula, clique aqui.