Quando chega os 40…
Não escrevo este post com a categoria de quem vivencia a realidade de ter 4.0 ou mais, afinal ainda vou entrar na casa dos “inta”…Mas o tempo passa tão rápido que logo logo estarei chegando à casa dos “enta” e não sei porque – talvez a proximidade do meu aniversário de 30 anos – estive refletindo esta semana sobre a vida dos homossexuais de meia idade.
E todos os exemplos conhecidos que tomei como base para minha reflexão, me fizeram ter certeza de uma coisa: Uma grande parte dos gays têm síndrome de Peter Pan.
Não se trata de uma crítica, apenas uma observação do mundo ao meu redor. Particularmente, eu não conheço um gay que seja totalmente despreocupado com a idéia de envelhecer. Já ouvi, inclusive, a seguinte frase de uma pessoa: “Ficar velho? Deus me livre! Prefiro morrer antes!”. Parece algo falado meio sem pensar, mas eu tenho quase certeza de que muitos já pensaram assim. Talvez hoje em dia as pessoas não sejam tão extremistas e a frase soe melhor desta forma: “Ficar velho? Deus me livre! Vou colocar botox, puxar aqui, puxar ali…”. Menos dramática, é verdade, mas não menos fútil.
Afinal de contas, o que há de errado em envelhecer no meio gay?
As respostas não são difíceis de se encontrar. A primeira delas, e que vem automaticamente à minha cabeça é o fator perda de atratividade sexual. Para a grande (grande mesmo!) maioria dos gays, o importante é ser atraente sexualmente, isto porque o gay geralmente é muito ligado ao sexo. O hedonismo, o culto à beleza e à juventude fazem parte da cultura gay. Para um gay mais velho é uma verdadeira derrota estar em algum lugar e não ser notado, ou pior, ser rejeitado simplesmente por não ter mais aquele viço da juventude. E isto acontece com frequência.

A rejeição pela velhice é tão grande que os próprios gays mais velhos a rejeitam. Diferente dos héteros que buscam um parceiro maduro, da mesma faixa etária para manter uma relação, muitos gays mais velhos normalmente são vistos “caçando” garotões. E não é raro que o garotão se aproxime apenas para se aproveitar financeiramente (Atenção ao texto antes que alguém venha me jogar pedras: Eu disse “não é raro”, ou seja, não estou generalizando! Lógico que há caras mais novos que curtem mais velhos) . Mas voltando aos garotões interesseiros…Nestes casos, a carência do mais velho é tão grande que ele fica cego, ou então, deixa-se enganar de forma consciente. É tudo muito clichê, mas infelizmente é assim que acontece na maioria dos casos. No final, acabamos vendo sempre a mesma história: o garotão dando o pé na bunda do mais velho e este sofrendo e caindo numa profunda depressão.
Se, talvez, o gay mais velho não tivesse a tal síndrome de Peter Pan, tal coisas não aconteceriam, pois ele não estaria preocupado em arrumar um garotão para exibir aos colegas e se autoafirmar sexualmente. Ao invés disso procuraria um homem de sua idade (isso vale também para idade mental) , com experiência e a fim de se relacionar de forma madura.
Em outros casos, eu observo que a síndrome de Peter Pan é tão aguda, que o gay quarentão (ou cinquentão, ou mais) parece não tomar consciência de sua idade e age como os gays novinhos e imaturos. Já vi muito coroa na pista de dança das boates tirando a camisa pra exibir seus músculos já não tão rígidos e atirando para todos os lados, como se fosse um jovem em plena fase de apetite sexual.
É claro que eles podem fazer isso, se quiserem e se sentirem bem, afinal são donos de suas vidas, mas como já tinha dito antes, estou apenas analisando o que há por trás dessas atitudes muitas vezes infantilizadas.
Outro ponto que eu percebo é que o medo da velhice vem acompanhado do medo da solidão. Héteros normalmente se casam, têm filhos, plantam a sementinha da posteridade. Os gays têm mais dificuldade para construir uma relação por vários motivos e muitos chegam à meia idade solteiros e muitas vezes, até distantes de suas famílias. Isso obviamente deve causar certo pânico e muitos questionamentos, tais como: Será que vou envelhecer sozinho? Quem vai cuidar de mim? Eu não vou deixar nenhum legado neste mundo?
Aí rola uma crise existencial, pois eles acabam se comparando errôneamente ao heterossexual. Para fugir dela, muitos preferem se esconder nas roupas do Peter Pan e agir como adolescentes, pensando apenas no aqui e no agora.
Mas e aí? Como fugir da Síndrome de Peter Pan?
Não deve ser tão fácil, pois se fosse muitos gays não estariam preocupados com as suas rugas. Mas talvez não seja tão difícil assim, basta que o gay se liberte desta prisão narcisista que o cerca. Dar mais valor a outras coisas mais importantes, aos sentimentos, ao seu crescimento como ser humano e, até mesmo ao seu crescimento espiritual , seja lá como cada um interprete isso.
Ao meu ver, toda esta cobrança estética é muito chata e acaba nos levando a um grande abismo. Pode ser que a síndrome de Peter Pan se aproxime de mim quando eu chegar aos quarenta, não posso dizer que estou totalmente imune a ela, afinal, também convivo neste meio, mas acho que estou preparado para enfrentar o espelho daqui a alguns anos sem grilos. Mesmo porque as transformações já começaram. Estou aprendendo a conviver com elas gradualmente. É natural, não tem como fugir disso. Como se diz por aí, a idade está na cabeça.
Aproveitando o tema, gostaria de saber a faixa etária dos que acessam o blog. O número de visitas diárias é grande, mas eu percebo que 99% dos visitantes prefere ficar anônimo. Se não for ocupar o tempo, peço que votem na enquete. Beijundas!
Arquivado em: Cultura e Comportamento Gay | Etiquetado: gay, homossexual, homossexualidade, homens maduros, maturidade, velhice, sexualidade, meia idade

Otimo texto, Kiko. Vale notar que existe uma faixa do mundo gay que aprecia homems mais maduros – eu por exemplo, que tenho 33 anos, adoro homems na faixa dos 40-50! Acho que um cara maduro é muito mais sexy, mais experiente na cama, mais interessante para conversar, etc.
oi Kiko, após ler a revista Junior, sobre seu livro, e pelo fato de ter tbm um blog voltado ao tema gay (onde tenho uma série, que por coincidência pura, chama-se “Sábado à noite”), resolvi procurá-lo, e vou acompanhar seu blog (se quiser acompanhar o meu tbm será bem vindo, hehehe)…
Vamos ao comentário… eu já disse que queria morrer antes de ficar velho, sou o mais velho da minha turma, apesar dos poucos 25 anos, e como a idade está na cabeça, sou mais velho ainda… mas tbm comecei a me conformar e perder a crise da idade depois de ter um namorado mais novo que eu… os mais velhos são mto mais interessantes, cultos e afim… claro que existem os novinhos igualmente interessantes… ams seria uma garimpação longa pra encontrar…
parabéns pelo Blog, vou comprar seu livro, e já se acostume com minha visitas, elas serão constantes….
abraços
Eu realmente entro sempre aqui mas nunca comento…
Tenho 26 anos, e essa questão da solidão na velhice realmente me preocupa.
Abraço.
Muito Bom texto…
Parabéns
Hi, cool post. I have been pondering this issue,so thanks for sharing. I’ll certainly be coming back to your posts. Keep up great writing
Kiko, realmente teu artigo é muito bom. Abordas com propriedade o assunto. Parabens mesmo. Não tenho preocupação com a idade até porque, passei um pouquinho dos 40. Gosto de pessoas acima dos 45. Vejo nesta idade uma beleza fora da estética padronizada. Abração e parabéns pelo texto.
Rubens.
Tenho 40 anos, não tenho qualquer síndrome e menos ainda a de Peter Pan. Sinto-me muito bem em relação ao que fui, sou e serei. Prefiro relacionamento (em todos os níveis) com homem na minha faixa etária ou com idade superior, homem maduro, por razões obvias, especialmente quanto à estética: são muito mais interessantes e resolvidos. Abração,