Sábado à noite em casa sem o Bruno. Não me resta muita coisa a fazer no meio da madrugada senão navegar na net. Se fosse na minha época de solteiro, a esta hora você poderia me encontrar no meio da muvuca fervida de alguma boate por aí. Confesso que às vezes sinto falta daquele “tuntitum” desvairado, mas só de imaginar toda aquela maratona desgastante de ida à boate, que inclui telefonemas, provas de roupas incansáveis na frente do espelho, deslocamento até o clube, filas na entrada, pista de dança lotada, enfrentamento de carões e tudo mais, eu já fico exausto e acabo não resistindo aos chamados dos meus lençóis. Vida de casado muda a gente mesmo, bem que mamãe dizia. Ou então é a idade chegando…Não sei…

Enfim, nessa madruga sem o Bruno me refugiei no MSN (sou carente de atenção) e num papo super legal com uma amiga que trabalha com Recrutamento e Seleção surgiu o assunto deste tópico.
Segundo ela, é normal ver homossexuais tentando esconder sua orientação sexual nas entrevistas de emprego. Muitos entrevistadores não percebem, mas ela, que é lésbica, sabe muito bem quando alguém está tentando “fazer linha”.
Isso ocorre, obviamente, por medo de eliminação no processo seletivo causado por algum possível preconceito do entrevistador, como se a orientação sexual determinasse as competências profissionais de alguém. Nós, gays, sabemos muito bem que isso é uma injúria, mas os héteros sabem? Parece que não…
Pode parecer absurdo, mas em pleno século 21 os homossexuais ainda precisam se esconder para conseguir uma vaga de emprego. Qualquer gesto ou palavra que denuncie a orientação sexual pode ser suficiente para um candidato ser eliminado.
A Constituição Federal é clara: é proibida a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil. Porém, a lei (como sempre) não faz menção à orientação sexual do trabalhador deixando uma brecha para que os empregadores dificultem a admissão de homossexuais.
Minha amiga me contou o caso de uma entrevista simultânea com 3 candidatos, uma mulher e dois homens. A entrevistadora percebeu que a mulher era lésbica e perguntou sobre a orientação sexual dela na frente dos outros dois candidatos e qual era a opinião dela a respeito da homossexualidade. Super constrangida, a candidata tentou desviar da pergunta e quis saber o que aquilo tinha a ver com o cargo concorrido. A entrevistadora, então, reagiu dizendo: “Você está preocupada por quê? Tem algo a esconder?”. Obviamente, a candidata respondeu, mas nem é preciso dizer que ela perdeu a vaga.
Absurdo, mas real. É por essas e outras que o gay, ou tem que viver no armário dentro da empresa, ou acaba na informalidade ou trabalhando como cabeleireiros, decoradores, profissionais da moda, promoters de festas, etc…empregos onde sua orientação sexual é bem vinda e não há preconceitos. Agora imaginem a dificuldade de um travesti ou um transexual para arrumar um emprego! Tarefa praticamente impossível. Aí, para a maioria deles, resta apenas o que todos já sabem: a prostituição…
Como se não bastasse a problemática da entrevista de emprego, o homossexual que consegue a vaga ainda tem que enfrentar o preconceito dentro da empresa, dos chefes e dos colegas de trabalho. Muitos não conseguem sequer uma promoção, ainda que mereçam, e acabam sendo preteridos por outro funcionário muito menos competente, porém heterossexual.
Mas é bom que estes empregadores homofóbicos abram o olho: Na 5a feira passada o TRT de São Paulo determinou que as Casas Pernambucanas pagasse uma indenização de mais de R$ 23 mil para um funcionário gay que era alvo de discriminação. Leia a matéria aqui.
De qualquer forma, aí vai um conselho dado pela minha amiga profissional de RH: numa entrevista de emprego, a melhor atitude a adotar diante de uma pergunta invasiva ou desnecessária (seja pessoal, religiosa ou sexual) para avaliar suas habilidades é a tática do “espelho burro”, que é devolver a questão, de forma educada e simpática. Pode ser uma estratégia. Mas é preciso estar preparado para a reação do entrevistador.
E lembre-se: Homofobia ainda não é crime no Brasil, mas Danos Morais, sim.
E vocês, leitores do blog, assumiriam sua sexualidade caso fossem questionados numa entrevista de emprego?
Aproveitando a brecha, você já assinou o manifesto pela lei que criminaliza a homofobia? Se não, assine clicando aqui.
Arquivado em: Direitos LGBT | Etiquetado: discriminação, emprego, gay, homofobia, homossexual, preconceito, RH, trabalho

Olá meu querido, é realmente desmotivante ter que se esconder para conseguir algo, não me assumi publicamente ainda, e passo em situações desconcertantes, mas acredito que os empregos que consegui foram pela minha capacidade, não por dó, ou QI, ou por ser negro e gay…
Cara, belíssimo texto, tive a ousadia de mandar o link para uma psi amiga… ela babou tbm.
abs, guri.
Bem Kiko, a questão é tão séria quanto posta nesse artigo. Tenho uma Opinião e também um testemunho sobre o fato.
Primeiro acho que a personalidade de um cidadão tem que ser clara e objetiva, pois quanto mais tentamos esconder algo, mais latente ele fica, isso se aplica tem vários aspectos. Nós (gays) não precisamos nos colocar em evidência mas também não devemos nos reprimir quando uma situação como essa é posta a nós. Acredito que a autenticidade nos torna fortes diante de tanto preconceito.
Passei por uma experiência em um antigo trabalho e vou dividi-la com vocês:
Tinha um namorado que conseguiu um emprego pra mim em sua empresa. Quando entrei tentei passar desapercebido, mas como a mulherada hj não está nada fácil, caíram em cima e me desviei alegando ser comprometido. Meses depois o circuito interno do prédio nos flagrou em árduos beijos na escada do andar e para nossa desgraça (ou sorte) o porteiro fez o favor de nos expor para nossos colegas de trabalho. Um motivo simples para levarem um processo, mas fomos surpreendidos com a receptividade dos nossos companheiros do dia-a-dia, que vendo dois Homens bem resolvidos namorando, nos deixaram bem á vontade e em momento algum fomos tratados com preconceito. Pelo contrário, sempre éramos surpreendidos com a curiosidade e receptividade dos “leigos” companheiros de trabalho.
Essa experiência me serviu para nunca me esconder ou me submeter ao preconceito alheio, e sim levantar a cabeça e enfrentar a situação tratando-a com a naturalidade que ela merece.
Um abraço Kiko e sucesso no Blog.